1 comments | domingo, março 25, 2007

Se mais fosse preciso, o suspense com que chega ao fim essa pessegada dos Grandes Portugueses, em torno da votação em Oliveira Salazar, chega para demonstrar o péssimo serviço público que está a ser prestado pela RTP, no momento em que anda mergulhada num exagero de auto-elogio a propósito do 50.º aniversário. Verdadeira ou não, legítima ou mera desinformação posta a circular como estratégia de marketing, a pseudopopularidade de Salazar pode encerrar múltiplos perigos, que se centram num simples conceito: num país onde impera a desistência a e a dormência do pensamento, mergulhado numa crise que faz a maioria da população apertar o cinto e pô-lo ao pescoço, é demasiado fácil o enraizamento de sonhos messiânicos, em torno de salvadores paternalistas que reponham/imponham a ordem e o pátrio fervor montado nas caravelas. Nem para ensinar o concurso serviu, já que os documentários foram fracotes, atendendo à matriz panegírica a que todos tinham de obedecer, e os debates foram condicionados, de forma a tirar impacto às poucas vozes críticas (seriamente críticas) que escaparam ao crivo dos produtores (o tratamento dado a Luís Reis Torgal foi sintomático). Escolher o "Grande Português", para qualquer pessoa que se interesse minimamente pelas coisas da história, é um absoluto disparate. Como jogo, é admissível, e, em verdade, não passa de um jogo. O problema está na circunstância de as pessoas não o entenderem como tal, ou não fosse este um país em que um outro jogo, o futebol, é o maior dos desígnios nacionais.

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0 comments | quinta-feira, fevereiro 15, 2007

No espaço territorial de uma aldeia chamada Vimieiro, entre a casa térrea onde nasceu e a campa rasa onde o sepultaram, Oliveira Salazar renasceu em austera glória, pela mão do zeloso Jaime Nogueira Pinto, que teve o desvelo de fazer um retrato televisivo do ditador em que a sigla "PIDE" não foi pronunciada uma só vez. Honra lhe seja, estava encarregado de defender a figura e assim fez. Por isso, a Guerra Colonial perpassou como um episódio disfarçado e as referências a repressão (terei ouvido bem "detenções preventivas"?...) foram ilustradas, a título comparativo, com imagens do brutal terror implementado por Estaline noutras paragens. E, para contestar os que acusam o velho "Botas" de ter atrasado o país, atirou com a crueza de alguns números da coisa económica, ignorando o atraso estrutural, que mexe, mais do que com coisas, com a multidão de pessoas mantidas numa modorra mental que, julgaria ele, fazia cumprir os desígnios da nação.

Está certo que isto dos "Grandes Portugueses" é um jogo, legítimo será, também, o papel de advogado do diabo, não importa se por devoção à chifruda criatura. Todavia, o público, essa vasta entidade que tem fé em tudo o que a televisão lhe impinge, raramente saberá ter um olhar crítico sobre as encomiásticas verdades reduzidas que lhe entram em casa.

P.S. - Falei há dias do programa sobre D. Afonso Henriques, viro-me agora para o de AOS. Pelo meio, ignorei a "biografia" de Álvaro Cunhal. A verdade é que não vi, mas não me custa a adivinhar que Odete Santos, a defensora do líder histórico dos comunistas portugueses, também tinha tido este peculiar brilhantismo na oração panegírica que proferiu. A fé tem dessas coisas.

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5 comments | quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Até parece que passo a vida a ver televisão, mas enfim... Chamou-me a atenção, ontem, o primeiro documentário sobre os finalistas desse passatempo dos Grandes Portugueses. Afonso Henriques visto por Leonor Pinhão. Eu não voto, mas, se já era verdade que nunca votaria no primeiro rei, mais certo seria agora que o não fizesse. Houve imprecisões várias, mas isso é inevitável quando se fala de alguém de quem a posteridade sabe, realmente, muito pouco. Algumas imprecisões mais ingénuas, como omitir que a versão contada do "milagre de Ourique" foi fabricada no século XVII, já que, originalmente, não tinha sido o próprio Cristo crucificado a aparecer ao monarca, mas S. Tiago... Mas essas imprecisões pouco importam, já disse. A figura, envolta na bruma dos séculos, presta-se a isso. Porém, há exageros insuportáveis, como a preocupação de tentar "demonstrar" que Portugal só o foi após a conquista de Lisboa...

Vindo de quem vem, não surpreende, ou não vivesse a autora ao serviço do benfica. É que pouca gente se lembraria de abrir um programa sobre D. Afonso Henriques com imagens de Eusébio da Silva Ferreira...

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0 comments | terça-feira, janeiro 23, 2007

Claro que é significativa a circunstância de não haver mulheres entre os "dez mais" da festarola televisiva. Mas não quero reflectir sobre o assunto. Já o fez Beatriz Pacheco Pereira, no debate a que me referi no post anterior, ao acusar os jornais de apenas noticiarem no masculino, o que induzirá os historiadores do porvir em erro, fazendo-os pensar que as mulheres de hoje teriam sido uma nulidade. Ora, isso significaria que os futuros historiadores fizessem uma regressão metodológica sem precedentes, ignorando a crítica das fontes e limitando-se à leitura de periódicos. Significaria, também, que teríamos de ter, hoje, a percepção daquilo que os historiadores de dois mil e cem quererão procurar e que produziríamos documentação em função deles, algo que nunca foi feito desde que o tempo é tempo. Mas também não é isso o mais importante. Sobre as mulheres, os historiadores do futuro terão mil e uma fontes para consultar, além dos jornais. Por exemplo, o livro "O Porto e as suas mulheres", obra de Beatriz Pacheco Pereira em que a própria Beatriz Pacheco Pereira tem direito a páginas de louvor. A bem da posteridade.

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2 comments | segunda-feira, janeiro 22, 2007

Somos o que julgamos ou julgamos o que queremos ser? Ou o que julgamos ter aprendido? A História com agá maiúsculo é uma coisa peculiar, porque grande e minúscula. Confuso? Talvez não o seja assim tanto, se o pensarmos à luz deste passatempo dos “Grandes Portugueses”, uma ilusão de fenómeno, porque toda a transcendência subjacente está no meio e não na mensagem, isto é, a televisão poderia transformar a produção de colheres de pau em desígnio nacional sem dificuldades de maior. Tal como os agentes políticos de sempre, por exemplo, fazem com a exaltação do passado, esse tal conceito ao mesmo tempo grandioso e redutor.

Mais confuso ainda, está visto. Toca a reformular. A linha de fronteira traça-se entre essa História maiúscula sobre a qual todos têm opinião (e ainda bem que assim é) e a historiografia, que devemos pintar com essa minúscula modéstia, a penosa construção parcelar do conhecimento que temos do passado, explicando-o e descrevendo-o sempre com generosa aplicação de reticências. Essa História que “ensinam nas escolas” (talvez já não tanto), essa História dos programas televisivos do “príncipe dos comunicadores”, tem uma roupagem definitiva, mesmo que lha não ponham explicitamente, enquanto a historiografia enverga as tímidas vestes da probabilidade, da proposta. A História é uma mitologia, enquanto a historiografia resulta, muitas vezes, na desmontagem de mitos. A primeira inspira mais, porventura, a segunda impacienta-se sem se resignar.

Quando o povão (e todos somos povão) é chamado a escolher o Grande Português, com maiúsculas à escala da História, faz uso dessa matriz mitológica que aprendeu na escola, na rua ou na mesa de café. É no campo do mito, portanto, que a votação se torna reveladora. Isso é importante? Claro que é, se o entendermos. A outra via, a do não entendimento, é sempre perniciosa.

Assisti, parcialmente, a mais um debate televisivo sobre este passatempo dos “Grandes Portugueses”. A ele voltarei. Agora, registo apenas este mundo de fantasmas do passado remoto e de um passado tão fresco que ainda temos por presente. Talvez o próprio programa, ou o que dele resultar, seja o fantasma do futuro, para que se complete o trio que Dickens fez desfilar frente a Ebenezer Scrooge. Os nomeados são dez, o dobro do normal numa categoria dos Óscares. Os portugueses votarão naqueles que mais os impressionam. Na Fonte das Virtudes ficam, agora, impressões sobre os próprios, escritas de cor, num momento de insónia (e publicadas agora porque não tenho net em casa...).


D. Afonso Henriques
Dizer que o primeiro rei de Portugal inventou isto é, de certo modo, uma verdade irrefutável. Mas foi, por isso, um grande português? Isso já não é tão fácil de dizer. Suponhamos que eu fundava o F. C. Porto. Isso fazia de mim um grande portista? Não necessariamente, pois seria necessário que, em minha vida, o conceito de portista ganhasse forma e relevância, para que eu pudesse ser portista, primeiro, e só depois grande. Ora, o “Conquistador” quis ser rei, não quis fundar uma pátria. Porque, quando ele viveu, a “pátria” era o rei e as imbricadas relações de vassalidade que nele acabariam sempre por desaguar. Um chefe militar, um “primus inter pares”. Certo é que o desgraçado que vivia na base da pirâmide, a esmagadora maioria da pequena população, não tinha qualquer noção de portugalidade nem saberia quem era o rei, admitindo-se que sabia da existência desse senhor acima dos restantes senhores. Fez Portugal? Sim. Conquistou Lisboa aos mouros? Pois... Isso torna-o símbolo máximo de uma nação que não existia? Se calhar, mas a nação não existia mesmo, não apenas quando nasceu, mas, também, quando a morte pôs termo ao longo reinado.

Álvaro Cunhal
Um grande português fiel ao soviete supremo? Tenham paciência!... Cunhal é, talvez, o símbolo maior da luta contra o Estado Novo. Porém, o comunismo é indissociável do internacionalismo e significaria sempre, se não o fim de Portugal, a anulação de Portugal num contexto que lhe seria superior. Se o que está a ser votado é o “Grande Português”, a escolha de Cunhal não faz sentido, se bem que se compreenda a inclusão do líder histórico do PCP na lista dos “dez mais”, resultante de um esforço de mobilização motivado, em grande parte, pelos ventos que anunciavam forte votação em Oliveira Salazar.

António de Oliveira Salazar
Um parolo. Salazar foi, acima de tudo, um parolo. E isso não é menorizar o autoritarismo, a repressão, o silenciamento, a guerra... Dizer que Oliveira Salazar é a causa do nosso atraso é injusto, se a análise for fria, na simples medida em que Portugal foi sempre um país atrasado. Mesmo quando cresceu e teve hegemonia marítima, nunca se desenvolveu. Mas que o homem contribuiu, fortemente, para o nosso atraso, isso é outra coisa. Metade do século mais alucinante da história universal, vivido sob a beatífica ditadura nascida em Santa Comba Dão, foi vivida por Portugal ao ritmo das colheitas e dos sinos nos campanários. Orgulhosamente sós. Portanto, uma grande bosta.

Aristides de Sousa Mendes
Uma grande pessoa, talvez ainda insuficientemente estudada, daí revestida, também, da dimensão mítica que lhe é atribuída. Mas há grandes pessoas em todo o lado, portuguesas ou não. O cônsul em Bordéus, que ajudou uma multidão de judeus, e não só, a fugir às garras do nazismo, foi um homem bom. Como o foi o alemão Oskar Schindler. Mas numa dimensão que, transcendendo a nacionalidade, não é portuguesa. Ou seja, escapa a esse conceito de identidade nacional que parece associado ao programa.

Fernando Pessoa
Um génio. Um homem atormentado, soturno, místico, que tantas vezes preferia a vida junto de anónimos companheiros de bebedeira. Mas que tinha outra dimensão, outras dimensões infinitamente acima da vulgaridade. Com os outros, os que não partilhavam essa dimensão de vulgaridade em que sobrevivia, apenas aceitava falar de arte, pela arte. E era um génio. “Quanto do teu sal são lágrimas de Portugal”: nunca haverá português pequeno capaz de o pôr nesses termos.

Infante D. Henrique
Um grande português, emblema da nossa universalidade, símbolo da partida para as descobertas. Mas um homem dividido, muitas vezes hesitante entre a guerra no Norte de África e o desbravamento da costa ocidental. Sempre muito cioso do seu património pessoal, que engordou brutalmente ao longo da vida. Mas um homem de visão, sem dúvida, não por querer espalhar a fé ou dar novos mundos ao mundo, mas por adivinhar o único caminho para onde, afinal, nos empurravam a fraca presença nos circuitos comerciais da Europa e a necessidade de contornar o tampão islâmico.

D. João II
Isabel, a Católica, ter-lhe-á chamado “O Homem”. Sem cargas pejorativas, apenas ciente da grandeza que lhe atribuía. O rumo dos povos e das nações é, como o rumo das pessoas, feito de curvas e contracurvas, de caminhos que se escolhem ao arrepio de outros. O “Príncipe Perfeito” esteve com o pai, Afonso V, na batalha de Toro, que não foi uma derrota militar de Portugal, mas anulou as veleidades de união ibérica com predomínio do reino ocidental da península. Há, hoje, historiadores espanhóis (insuspeitos, portanto) a admitir que, caso D. Afonso V tivesse sabido seduzir melhor a aristocracia castelhana, apresentando um bom plano, não teria sido o casamento de Isabel de Castela e Fernando de Aragão a determinar o surgimento de Espanha. D. João II, homem de uma visão extraordinária, poderia ter sido senhor de algo bem maior. Mas não foi, o que não o impediu de ser “O Homem”. Mais do que pela hábil negociação de Tordesilhas, o reinado deste monarca ficou marcado pela acção estratégica, pelo prosseguimento de uma política de expansão que privilegiava o sonho da Índia e, provavelmente, acautelava a posse do Brasil (que algumas teorias não descabidas de sentido admitem ter sido tocado bem antes de Cabral). Toda a viagem do Gama foi construída no tempo de D. João II (a viagem de Afonso de Paiva e Pero da Covilhã, um dos mais apaixonantes episódios desse tempo, merecia mais ampla divulgação). Suspeita-se que tenha morrido envenenado. Ele mesmo era, diga-se, alguém que mandava matar facilmente. Muito facilmente. Mas foi um grande rei. O sucessor, o afortunado D. Manuel I, brilhou, mas em grande parte porque herdou a máquina e a estratégia.

Luís Vaz de Camões
Aos dez de Junho de 1580, quando Portugal estava a cair sob o legítimo domínio de Filipe II, que assim foi senhor de um império onde o sol nunca se punha, a morte de Camões estava ainda longe de ser um marco no espírito da nacionalidade. Mas é-o, ainda hoje. Dele é o “Dia de Portugal”, a ele não faltaram engenho e arte para, cantando, espalhar por toda a parte essa nossa grandeza, também ela fortemente carregada de mito, mas sem a qual não somos. Não se diz aqui mal dos poetas.

Sebastião José de Carvalho e Melo
Um tirano da pior espécie. Mas iluminado. O Marquês de Pombal, embaixador em Viena e Londres, aprimorou lá por fora as estratégias políticas e cimentou a ideia de conceber um destino para o país. Os lisboetas associam-no ao terremoto de 1755 (que destruiu todo o Sul do país, não apenas a capital...), mas a verdade é que Pombal foi um génio reformista, cuja obra está ainda, de várias maneiras, estampada na nossa organização presente. Figura que nunca poderia gerar indiferença, fez com que um largo lapso temporal do século XVIII seja intitulado de “período pombalino”. Ou seja, deixou a marca por tudo quanto era lado, podendo ser dados como exemplos a reforma do ensino (total, não apenas da universidade) ou a organização da economia, de que é estandarte a criação da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, mas também a aposta em modelos embrionários de industrialização (de inspiração colbertista, é certo), que os nossos “amigos” ingleses trataram de arrasar, “en passant”, aquando das invasões francesas... Em suma, quis mudar tudo e tudo mudou. À força, claro. Já se disse que era um tirano da pior espécie. A perseguição à velha aristocracia, simbolizada pelo abjecto processo dos Távoras, ou a expulsão da Companhia de Jesus são as faces mais visíveis do estabelecimento musculado de uma nova ordem. Fazia sangue sem pensar duas vezes (o Porto tem escrita a negro, nos seus anais, a repressão da revolta dita dos taberneiros, em 1757). Era um homem do seu tempo? Já vi José Hermano Saraiva dizer a mesma coisa a respeito de Salazar. Porventura seria. A cada um caberá dizer se isso faz dele o Grande Português.

Vasco da Gama
O Gama era um soldado, não um navegador. E não é absolutamente certo dizer que “descobriu o caminho marítimo para a Índia”, como nos ensinaram nos bancos da escola primária. Antes cumpriu esse caminho. A viagem de 1498, que vinha sendo programada desde o reinado de D. João II, não era inteiramente no escuro. Houvera aproximações ao Índico, feitas por agentes portugueses (já atrás referi a viagem de Afonso de Paiva e Pero da Covilhã). O piloto de Melinde, de que Camões fala nos Lusíadas, estaria já apalavrado quando a armada do Gama lá chegou. Mas é certo que, apesar de o caminho estar de algum modo preparado, a viagem foi um salto no desconhecido, a entrada num outro mundo, de outras gentes e de outros hábitos, que veio dar substância ao período mais dourado da existência lusa. O Gama é grande por ser um símbolo de viragem. Mas não é o mentor da viragem.

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0 comments | quinta-feira, outubro 19, 2006

Foto de POS
Passando o Adamastor, Porto, 2006

Faço horas para jantar, escrever aqui é estratégia aceitável para abrir o apetite. Que já é muito, excepto para a escrita, do que resulta incómodo dilema temático. Não me apetece muito falar do Rivoli, dizer mal do que Rui Rio é e representa, dizer que também chegam as coisas a este ponto por os meios culturais serem tacanhos e amiguistas, dizer que a ocupação não passou de "fait-divers" inconsequente mas não perdeu por isso validade e até legitimidade moral (não legal), assumidas que sejam todas as eventuais consequências (que bem podiam ser nenhumas, saibamos relativizar as coisas). Bom, parece que já falei...

No post anterior tinha já escrito sobre o teatro municipal, de forma muito subliminar, é certo, mas também sobre esse logro que é a eleição dos "Grandes portugueses". Mas, se dei uma cajadada em dois coelhos, reconheço que não os matei, pelo que posso voltar à carga. Não contra os grandes portugueses, pobres coitados, mas contra os mitos usados comercialmente pela televisão pública.

Tal como a aldeia de Monsanto não se livra de ser "a mais portuguesa de Portugal", carimbada que assim foi no concurso que o salazarento Secretariado da Propaganda Nacional promoveu em 1938, alguma figura entrará para o luso imaginário como O GRANDE PORTUGUÊS. E é assustador pensar o que dali poderá sair. Saia o que sair, é assustador, pois será sempre uma escolha redutora, enganosa, pacóvia. Não que daí venha mal ao mundo, a coisa já foi feita noutros países, bem como há muito que as revistas se empenham na escolha de personalidades do século, do milénio ou da Criação. Mas é deprimente pensar no risco de a vitória poder caber a uma cantadeira, Amália Rodrigues, ou a um pontapeador de bolas, Eusébio, apenas para citar os mais óbvios entre carradas de exemplos.

Assim pode suceder por tudo o que desbobinei no post anterior, por tudo o que faz deste Portugal uma terra sem critérios, sem exigência, sem memória e sem rigor. Basta olhar para as populares personalidades que deram palpites na emissão inaugural do programa, incapazes de serem isentas de disparates. Também disto darei dois exemplos.

Se bem me lembro (não era Nemésio o único a ter memória), Marcelo Rebelo de Sousa ergueu a simbólica espada de D. Afonso Henriques, o filho que, alegava, se rebelou contra a própria mãe e contra o poderoso rei de Leão, o seu primo Afonso VII, em nome da ousada ideia de uma nova nação que seria Portugal. Ora, historicamente, isso é uma asneirada das grandes. Em primeiro lugar, D. Afonso Henriques nunca foi português. Nos documentos da sua chancelaria, a partir de dada altura, surge como "rei de Portugal", mas nunca se sentiu português, porque esse era um conceito inexistente no século XII. O nosso rei fundador era um chefe militar. Ponto. Ao ser rei, era um chefe militar mais chefe do que os outros chefes militares, seus vassalos. Não havia estado, não havia nação, o que não obsta a que aí esteja o início da nacionalidade. Mas a revolta do jovem intrépido não é bem como se conta, ou seja, como a historiografia actualmente entende, foi rei porque Afonso VII deixou. E porquê? Porque o rei de Leão ostentava o título de imperador, e, para esse título ganhar força, era conveniente que houvesse reis entre os que lhe prestassem vassalagem. É certo que o primeiro monarca de Portugal foi um vassalo nada cumpridor, mas isso é outra história.

Caso número dois: Vasco da Gama. Era um soldado, não um navegador, mas a ele confiou el-rey D. Manuel, primeiro dessa graça que haveria de ser a última da nossa monarquia, o comando da primeira armada que rumou à Índia. Desfazendo o primeiro mito, esclareça-se que o Gama não descobriu o caminho marítimo coisíssima nenhuma, pois estava descoberto e bem descoberto. A passagem do Cabo da Boa Esperança havia sido conseguida (logo, solucionada) por Bartolomeu Dias. Quanto ao Índico, era um oceano totalmente palmilhado e com rotas perfeitamente estabelecidas, pelos navegadores chineses, primeiro, mas também pelos muçulmanos. Quando o Gama foi a Melinde e conseguiu um piloto, não foi por ter conquistado a simpatia do rei local. Esse piloto estava lá à espera, antecipadamente contratado. Ou seja, a viagem de 1498 tinha sido programada muito antes, graças ao trabalho desenvolvido a mando daquele que foi, efectivamente, o grande senhor das descobertas, o Príncipe Perfeito, segundo João que reinou em lusas terras. Um dos episódios mais apaixonantes desses tempos de aventura foi a viagem de Pero da Covilhã e Afonso de Paiva, agentes de D. João II que andaram pelo Índico, pela Índia, pela Etiópia em busca do Preste João, por toda a costa oriental de África muito antes de lá chegar a armada que Camões cantou. Resumindo, o Gama foi grande porque constitui um marco, mas não foi o grande obreiro de nada daquilo que o imortalizou. Será esse o maior dos portugueses?

Poderia ir por aí fora, mas salto uns séculos, para tocar de raspão a polémica em torno da não-inclusão de Oliveira Salazar na lista de sugestões inicialmente disponibilizada pela RTP. Não me choca que não esteja lá, mas também não me escandalizaria se fosse vetado. Assim aconteceu com Hitler, na Alemanha (não, não estou a comparar Salazar com Hitler), o mesmo sucedeu em França, onde o marechal Pétain foi irradiado antes de o jogo começar. Incomodar-me-ei se o "botas" tiver uma votação expressiva. Claro que sim. Mas não é impossível. O homem faz parte da história, claro, não o podemos nem devemos apagar. Só que me parece que há por aí muitos fãs que não fazem a menor ideia de quem foi o tacanho ditador de Santa Comba Dão. E do tacanho ditador passamos para o iluminado déspota. Nesse programa inaugural, ninguém recomendou que se votasse em Sebastião José de Carvalho e Melo, conde de Oeiras, marquês de Pombal, ministro de D. José I. Este homem mudou completamente Portugal, fez, no século XVIII, reformas que, em muitos aspectos, ainda perduram, tinha, talvez paradoxalmente, um projecto de modernização do país, pode até ser visto, mais paradoxalmente ainda, como um precursor do Liberalismo. Menos no que respeita ao mais importante valor dos liberais, a Liberdade, claro. Pombal é a marca do tempo em que viveu: o Pombalismo, o Período Pombalino, a Época Pombalina... Mas era um tirano da pior espécie, talvez por isso seja difícil nomeá-lo, a duzentos e muitos anos de distância.

O problema, afinal, está em nomear quem quer que seja. O que é um grande português? É impossível, com seriedade, escolher alguém quando voltamos o olhar para todos os tempos, todas as gentes, todos os espaços. Claro que aquilo é apenas um jogo, mas quase todos olharão para ele como se da verdade se tratasse. Isso é que o torna um logro.

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