1 comments | terça-feira, janeiro 02, 2007


Ir ao cinema é das coisas que nunca me importei muito de fazer sozinho, mas há contrariedades. Vi “Babel”, de Alejandro González Iñárritu, e, enquanto deixava a sala cheia, rodeado de gente, suponho que teria um ar abananado e sei que disse de forma audível, duas ou três vezes, “que grande filme!”. Porquê? Creio que continuarei alguns dias a tentar perceber porquê.

As reticências motivadas pelo total aplauso da crítica à última obra do cineasta mexicano, autor de “Amores perros” e “21 gramas”, não eram muitas, se bem que esse tipo de unanimidade encha de pulgas a retaguarda das minhas orelhas. Afinal, não há que vacilar. “Babel” é algo de superior. Porquê? Creio que continuarei alguns dias a tentar perceber porquê.

Vamos lá ver se saímos disto. O problema não está em perceber ou deixar de perceber o filme. Não é novo sermos confrontados com o paralelismo de acções, tempos e lugares que se entrecruzam e que, progressivamente, vão ganhando a unidade que já nem nos deixa de boca aberta, pois é mesmo isso que esperamos. González Iñárritu faz isso muito bem, muito bem mesmo, mas um grande filme é mais do que uma grande obra cinematográfica. Porquê? Creio que continuarei alguns dias a tentar perceber porquê.

Adiante. Babel, Babilónia, incomunicabilidade, incompreensão, diferença, divergência, incongruência, estranheza, preconceito, medo... Poderia desfiar aqui dicionários inteiros em busca da palavra certa. E vou escolher uma: Saramago escreveu sobre a cegueira; “Babel” é sobre a surdez.

A surdez. Também a surdez, em sentido estrito, está no filme, uma entre tantas incompatibilidades de linguagem, de mentalidade, de cultura... Mas todo o filme é o sentido lato da surdez. Dos enganos. Não o vou contar, não estou aqui para contar filmes, mas esta história, todos os pormenores desta história, embrenha-se em nós, ineludível, inelutável, indelével. Porquê?...

Porque somos nós. À medida que aprofundamos a reflexão sobre o filme, é isso que vemos. Nós. Todos nós, únicos. Gritando na escuridão, sofrendo porque nunca plenamente ouvidos. Primeiramente, o que vemos é a surdez dos americanos, os polícias do mundo que tantas vezes ouvem o que querem e o que querem é o que não deviam querer. São os americanos que vêem terrorismo onde há muçulmanos, são os guardas fronteiriços que vêem lixo onde há mexicanos... É o muro que se constrói ao longo da fronteira, que não se vê, mas que está erguido um pouco por todo o filme. Mas o filme não é sobre americanos. A surdez não é americana, é global
(até a surdez dos jornalistas lá está, o falseamento de factos que a febre mediática gera, porque os media ouvem-se demasiado uns aos outros e deixam de auscultar o mundo)
mas não é só isso, não é só isso...

“Babel” somos nós. O filme é tão marcante porque é, afinal, sobre tudo. Sobre todos. Sobre a justaposição de milhões e milhões de universos em que vivemos, pois cada homem é um universo, cada mulher é um universo... e todos falam, de certo modo, línguas individuais. Todos esbarram, num ou noutro momento da vida, na surdez do outro. Porque todos temos essa limitação desde que uma torre foi erguida em Babilónia, para chegar aos céus. Porque todos – ocidente, oriente, países, nações, grupos, famílias, indivíduos – apenas logramos ouvir, muitas vezes, o que releva dos nossos valores. Porque todos julgamos os outros, diferentes, à luz dos nossos valores. Porque só os nossos valores têm validade, todos os outros – os outros valores, os valores dos outros – correm o risco de esbarrar na nossa altiva surdez.

“Babel” é um filme sobre tudo. Sobre todos. Sobre a enorme colmeia, como a de Cela, maior do que a de Cela, onde as abelhas perderam a capacidade de agir em comum. Somos nós. Parece-me que não há melhor definição para o que é uma obra-prima.

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Adorei todo este texto acho q possuis um grande potencial!
Espero ler mais textos teus

22:09

 

Enviar um comentário

<< Home